quinta-feira, 1 de março de 2012

O QUE OS ALUNOS DAS SÉRIES INICIAIS DIZEM SOBRE AS IMAGENS QUE VÊEM.

       Em minha primeira postagem irei falar sobre o que os alunos das séries iniciais falam sobre as imagens que veêm, sempre buscando comparar com citações do livro  " Imagens que falam:leitura da arte na escola" da autora Maria Helena Wagner Rossi.As afirmações foram dadas a partir de uma coleta de dados desenvolvida na cidade de Criciuma, em uma turma de Séries Iniciais aderindo a necessidade de melhor reconhecermos como os alunos das séries iniciais percebem as imagens que os rodeiam, para que possamos assim traçar estratégias de ação que alcancem cada vez mais resultados significativos.
A investigação deu-se por meio de Pesquisa descritiva e de campo, sendo que além da pesquisa foi realizada observação de duas aulas de artes para que se pudesse fazer uma análise significativa, desta maneira tirar conclusões precisas deste trabalho.
A Realidade socioeconômica que compreende a comunidade escolar em sua maioria com dificuldades financeiras, muitos desempregados, com problemas de habitação, saúde, educação e lazer. As famílias estão permeadas pelos desajustes sociais, afetivos, emocionais, como também a violência está presente no meio familiar.
Num primeiro contato foi explicado aos alunos sobre a pesquisa que seria realizada, sendo que neste momento também foi enviado as autorizações aos responsáveis para a utilização de fala e imagem na pesquisa.
Sendo importante ressaltar que os nomes que aparecem neste artigo são somente os dos que os responsáveis autorizarão, sendo desta forma para os que não autorizarão será mencionado somente a primeira letra do nome.
A turma observada os alunos não são familiarizados com a arte, A quase totalidade não possui computador, nem televisão. Não lêem livros, nem revistas, restringindo a leitura aos materiais exigidos pela escola, sendo que não têm o hábito de interpretação de texto. Esses alunos não costumam visitar exposições de arte, e não freqüentam teatro.
As imagens escolhidas para a realização da pesquisa foram bem diversificadas para consegui analisar o que eles realmente vêem.
·                    O espantalho – Portinari: Esta imagem foi escolhida pela grande
quantidade de cores frias e por conter elementos que dariam de ser identificados como o espantalho.
·                    Sem nome - Otto Cavalcanti: Esta imagem foi escolhida pela
grande quantidade de cores quentes, sendo que por ser uma figura abstrata fico me perguntando se eles entenderiam sobre o que a obra fala e quais os personagens nela. A partir desta obra ficara evidenciado o gosto dos alunos por cores frias ou quentes.
·                    Sem nome – Van Gogh: Nesta obra de Van Gogh aparecem
somente dois pares de gotas, as coloquei imaginando que poderia aguçar nos alunos a utilização da narrativa para interpretar a obra, será que eles relacionariam com algo do seu cotidiano?
·                    A memória – Magritte Esta obra é bem diferenciada das outras,
não á muitos elementos nela e por isto fiquei curiosa por saber o que veriam nela. O que para eles a obra significaria?
·                    Exposição Buuu! As duas ultimas imagens são de uma mesma
exposição, as coloquei pois gostaria de analisar o que eles acham das obras.
 “O artista não é o único a concluir o ato de criação, porque o espectador estabelece o contato da obra com o mundo exterior, decifrando e interpretando suas qualidades profundas e assim juntando sua própria contribuição ao processo criativo” (Morais, 1998, p.217.)

Percebemos então como é importante a análise das idéias que os alunos usam para dar sentido as imagens que lêem.

De acordo com a autora Rossi, Maria Helena, 2003, p.72.
 “Os critérios mais usados pelos alunos são: a cor, o tema, o realismo e a expressividade da obra, com menor freqüência aparecem também a criatividade do artista, a maestria do artista e a utilidade da obra”.

Nas séries iniciais observadas o critério da cor como julgamento estético é o primeiro que aparece para eles a cor determina a qualidade da imagem, uma imagem é boa se tiver cores que lhe agradam, não importa a função de uma determinada cor numa imagem.
Na pergunta “O pintor estava triste ou feliz? Por quê?” se referindo à obra de Portinari – O espantalho Anderson (11 anos) diz “ Triste porque só tem cores escuras”, Maria Alice (11 anos) diz “ Triste pela cor”.
Na obra de Otto Cavalcante Anderson (11 anos) diz “Feliz porque a obra é bem colorida”, e Nathalya ( 10 anos) diz “Feliz porque é colorida”.
Aparece também á vinculação convencionada entre as cores e os sentimentos. Como vemos mencionada nas seguintes acima.
Como afirma Parsons “a cor entre os meios de expressão, é o mais facilmente relacionado com a expressividade da obra”
Ou seja, se o artista esta triste utiliza-se de cores frias, se o artista esta feliz utiliza-se de cores quentes.
O julgamento pelo tema também esta presente, é onde o aluno prioriza um elemento qualquer da obra.
Se o tema é bom a obra é boa e se a imagem é ruim quando representa cenas tristes como na imagem I – de Portinari -= O espantalho.
Observamos esta afirmação na resposta de Thaylon (10 anos) que diz “Gostei mais da obra de numero um, pois parece um filme”, e Anderson (11 anos) diz “Gostei mais da obra de numero seis porque nos passa sobre o amor”.
Os alunos fazem relação Imagem-mundo I, onde o aluno pensa que o artista apenas se aproveita das oportunidades que á vida lhes oferece, quando as coisas (temas) surgem diante dele.
Observou-se isto na imagem dois de Otto Cavalcante onde para grande maioria dos alunos ao artista desenhou o Carnaval, pois era esta data festiva que estava ocorrendo, também se observou isto na imagem três onde para os alunos ele havia visto a bota dele e desenhou.
Em alguns alunos também se analisou a relação imagem-mundo 3 onde o artista transfere seus sentimentos para a obra.
Eis uma resposta que demonstra isto da imagem de Otto Cavalcanti, Anderson (11 anos) diz “O artista pintou a obra porque estava alegre”. Se referindo a obra de Portinari – O espantalho Nathalya (10 anos) diz “O artista pintou esta obra, pois estava se sentindo preso”
Nas respostas abaixo também é possível observar que o aluno acredita na possibilidade de o artista decidir algo que vai fazer A(12 anos) diz “Ele pintou, pois teve esta imaginação”, Anderson(11 anos) diz  “Ele pintou esta obra porque teve vontade”, e Thaylon (10 anos) diz “Ele pintou pois sabia que ela iria ficar famosa”.
Com isto concluímos que estes alunos utilizam idéias do Nível I e do Nível III.
“O julgamento estético não é algo separado das suas experiências cotidianas, pois são estas experiências que lhes proporcionam os critérios com os quais eles enfrentam os objetos no mundo. Por isso o julgamento nunca é demasiadamente separado do gosto pessoal” (ROSSI, Maria Helena, 2003, p 71.)

Podemos notar esta afirmação em todo o decorrer da análise, pois muitas das respostas foram embasadas em suas experiências pessoais, falavam de seus sentimentos, de suas cores preferidas.
Quando lhes pergunto “Sobre o que é esta obra? O que ela quis passar?” se referindo a obra de Portinari – O espantalho a resposta de , Pedro Lucas(10 anos), Maria Alice (11 anos), Rafael ( 13 anos) responderam “Sobre o espantalho voando, mas não sei o que quis passar”, e Nathalya (10 anos) diz” Sobre o espantalho voando, ele quis dizer que agente pode” tá “ preso num lugar sem, paredes”.
Se referindo a obra de Van Gogh Pedro Lucas (10 anos) diz “Sobre dois tênis desamarrados”, Maria Alice( 11anos) diz “Dois sapatos velhos” e Thaylon (10 anos) diz “Um sapato velho no deserto”.
A falta de interpretação de textos mencionada no inicio da observação determinou toda a pesquisa também, pois em todas as perguntas os alunos conseguiam somente responder “SIM”, “NÃO”. “BOM”, mas dificilmente conseguiam explicar o porquê da sua resposta.
A partir dos dados elencados nas entrevistas acima, algumas reflexões são escritas no intuito de analisar e compreender os elementos que formam o perfil do aluno das Séries Iniciais, e suas idéias diante da leitura de uma imagem.

Na sociedade atual o texto não é o único a transmitir mensagem, as imagens refletem idéias e conceitos. Os significados das imagens podem variar de acordo com o repertório de quem faz a leitura.
As imagens são utilizadas á anos pelos homens. O homem primata utiliza-se de imagem para se comunicar, os egípcios para registrar sua história, na Idade Média para repassar os conceitos religiosos. No renascimento para despertar a ilusão, nos “ismos” da história da arte expressam sentimentos, até chegar a nossa atualidade onde as imagens são repletas de significados.
É impossível negar que em nossas salas de aula recebemos a cada dia alunos com uma enorme bagagem cultural, por isto é de suma importância adequarmos as propostas as possibilidades dos alunos.
“É importante reconhecer que a construção do conhecimento é determinado pelas características da cultura em que o aluno vive” ROSSI, Maria Helena, 2003, p. 12.
Há muitos programas visando à melhoria do ensino da arte no Brasil, o novo ensino da arte enfatiza a prática da leitura de imagens em todos os níveis do processo de escolarização.
A leitura estética deve ser um elemento fundamental, essencial no processo educacional e que tenha significado para a vida dos alunos e não ser apenas mais um exercício escolar.

 “Se o conhecimento produzido com esta pesquisa servir para que o professor entenda melhor a natureza de compreensão estética de seus alunos terá alcançado seus objetivos. Então ele poderá fundamentar suas propostas de leitura, levando em consideração as condições de construção de conhecimento dos alunos e a natureza da compreensão estética, possibilitando assim a adequação necessária entre a sua prática e os objetivos da nova disciplina arte.” (ROSSI, Maria Helena, 2003, p.134.)


Percebemos a suma importância de se analisar os alunos para depois iniciar uma proposta que possibilite ao aluno um melhor desenvolvimento estético.

Referência:
ROSSI, Maria Helena Wagner; Imagens que falam: leitura da arte na escola. Porto Alegre: Mediação, 2003













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